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O que é o FGTS
O FGTS é uma conta bancária vinculada ao empregado, alimentada mensalmente por depósitos do empregador equivalentes a 8% da remuneração. O fundo foi criado em 1966 como alternativa à antiga estabilidade decenal, e funciona como uma “poupança forçada” que o trabalhador pode acessar em situações específicas (rescisão, compra de imóvel, doença grave, aposentadoria).
A particularidade do FGTS é que o dinheiro pertence ao trabalhador, mas fica em conta de gestão pública (Caixa Econômica Federal), com regras estritas de movimentação. Para o trabalhador, o FGTS é especialmente importante em quatro momentos: no mês a mês (acumulando reserva); na dispensa sem justa causa (saque + multa de 40%); na compra de imóvel; e na aposentadoria ou doença grave.
Lei 8.036/1990: a base legal do fundo
Lei 8.036/1990, art. 15 — Depósito obrigatório
“Para os fins previstos nesta lei, todos os empregadores ficam obrigados a depositar, até o dia 7 (sete) de cada mês, em conta bancária vinculada, a importância correspondente a 8 (oito) por cento da remuneração paga ou devida, no mês anterior, a cada trabalhador, incluídas na remuneração as parcelas de que tratam os arts. 457 e 458 da CLT e a gratificação de Natal a que se refere a Lei nº 4.090, de 13 de julho de 1962.”
Os pontos: depósito mensal pelo empregador; alíquota de 8% sobre a remuneração total; prazo: até o dia 7 do mês seguinte ao trabalhado; base de cálculo: remuneração total (salário + adicionais habituais + 13º).
O depósito mensal de 8%
O que entra na base de cálculo
Salário-base, adicional noturno habitual, adicional de insalubridade ou periculosidade, horas extras habituais, comissões e prêmios habituais, 13º salário e outras parcelas salariais com natureza remuneratória.
O que não entra
Vale-transporte (natureza indenizatória), diárias para viagem dentro do limite legal, ajuda de custo com natureza indenizatória e prêmios pontuais sem habitualidade (após a Reforma de 2017).
Exemplo de depósito
Empregado com salário de R$ 2.200 + adicional noturno habitual de R$ 200 + horas extras habituais de R$ 300 = base de R$ 2.700. FGTS mensal: R$ 2.700 × 8% = R$ 216 por mês. Em um ano: 12 × R$ 216 = R$ 2.592 (sem contar o FGTS do 13º).
Quando o trabalhador pode sacar
Saques rescisórios
Dispensa sem justa causa, rescisão por culpa recíproca (saque parcial), rescisão indireta (equivale à dispensa sem justa causa), acordo entre as partes — art. 484-A da CLT (saque de até 80% do saldo), aposentadoria e falecimento do trabalhador (saque pelos dependentes).
Saques para moradia
Compra de imóvel (entrada ou complementação de financiamento), quitação de dívida com SFH, amortização de prestações do financiamento habitacional.
Saques por motivos especiais
Doença grave do trabalhador, cônjuge ou dependente (câncer, AIDS, estágio terminal); calamidade pública declarada; necessidade pessoal urgente por desastre natural; idade superior a 70 anos.
A multa de 40% na dispensa sem justa causa
Lei 8.036/1990, art. 18, §1º — Multa rescisória
“Na hipótese de despedida pelo empregador sem justa causa, depositará este, na conta vinculada do trabalhador no FGTS, importância igual a quarenta por cento do montante de todos os depósitos realizados na conta vinculada durante a vigência do contrato de trabalho, atualizados monetariamente e acrescidos dos respectivos juros.”
A multa é calculada sobre todo o saldo depositado durante o contrato (incluindo o que já foi sacado antes), a correção monetária e os juros do FGTS. Exemplo: trabalhador com 5 anos de empresa, R$ 25.000 depositados. Multa de 40% = R$ 10.000, pagos pela empresa diretamente na conta vinculada.
Não geram multa: pedido de demissão, justa causa, término de contrato a termo (em regra) e aposentadoria espontânea (em regra). Geram multa de 20%: rescisão por acordo (art. 484-A) e culpa recíproca.
Saque-aniversário: vale a pena?
A Lei 13.932/2019 criou a modalidade do saque-aniversário — o trabalhador pode sacar parte do saldo do FGTS uma vez por ano, no mês de aniversário, em troca de renunciar ao saque integral em caso de demissão. A adesão é opcional e a rescisão tem consequências importantes.
Imagine que o empregado tem R$ 30.000 de FGTS e é demitido. Sem o saque-aniversário, ele saca todo o saldo + a multa de 40% (= R$ 42.000 total). Aderindo ao saque-aniversário, ele só recebe a multa de 40% (= R$ 12.000) na rescisão — o saldo de R$ 30.000 fica na conta, sendo liberado apenas no aniversário (em parcelas anuais).
Como conferir os depósitos
Baixe o aplicativo FGTS (Caixa Econômica Federal) e acompanhe o extrato mensal de cada vínculo (empresa atual e anteriores). A conferência ideal é mensal, logo após o dia 7 de cada mês. Verifique: valor do depósito (deve ser 8% da remuneração total), periodicidade (deve ser todo mês), FGTS sobre 13º (em dezembro e junho) e FGTS sobre aviso indenizado (Súmula 305 do TST).
Se houver irregularidade: comunique a empresa por escrito; denuncie ao Ministério do Trabalho se não regularizar; e procure orientação jurídica — FGTS atrasado pode ensejar rescisão indireta.
Perguntas frequentes sobre FGTS
Posso sacar o FGTS a qualquer momento?
Não. O saque só é permitido nas hipóteses previstas na Lei 8.036/1990 (rescisão sem justa causa, compra de imóvel, aposentadoria, doença grave, etc.). Fora dessas hipóteses, o dinheiro fica na conta vinculada.
Tenho FGTS de várias empresas. Como funciona?
Cada vínculo tem sua conta vinculada. Quando você é dispensado sem justa causa de uma empresa, saca aquele saldo. As contas das empresas anteriores (em que você pediu demissão, por exemplo) ficam paradas até futura hipótese de saque.
A empresa não está depositando. O que faço?
Comunique formalmente (e-mail com aviso de recebimento). Denuncie ao Ministério do Trabalho via portal gov.br. Se não regularizar, há base para rescisão indireta (CLT, art. 483, “d”) — você sai recebendo tudo como se tivesse sido dispensado.
O FGTS rende juros?
Sim, mas pouco. A correção é por TR + juros de 3% ao ano, o que tem ficado historicamente abaixo da inflação em muitos períodos. Há ações em curso no STF discutindo a substituição do índice por outro mais favorável.
Posso usar o FGTS para pagar dívida do cartão de crédito?
Não. O FGTS não pode ser usado para dívidas comuns. As hipóteses de saque são taxativas (lista fechada na Lei 8.036/1990).
Empresa em recuperação judicial: o FGTS está garantido?
Sim. O FGTS é crédito privilegiado no processo de recuperação ou falência. O empregado tem prioridade no recebimento, junto com salários atrasados.
Sou MEI. Tenho FGTS?
Não, salvo se for empregado de outra empresa. O MEI é empresário individual, não empregado. O FGTS é direito do trabalhador celetista (com CTPS assinada).
Onde está na lei
- CF, art. 7º, III — direito ao FGTS
- Lei 8.036/1990 — Lei do FGTS
- Lei 8.036/1990, art. 15 — obrigatoriedade e prazo do depósito
- Lei 8.036/1990, art. 18, §1º — multa de 40% rescisória
- Lei 8.036/1990, art. 20 — hipóteses de saque
- Lei 8.036/1990, art. 22 — multa pelo atraso do depósito
- Lei 13.932/2019 — saque-aniversário
- CLT, art. 477 — verbas rescisórias (FGTS incluso)
- Súmula 305 do TST — FGTS sobre aviso indenizado
- Súmula 362 do TST — prescrição do FGTS
O que fazer agora
- Baixe o aplicativo FGTS da Caixa e confira o extrato.
- Verifique os depósitos dos últimos meses: valor, periodicidade, FGTS sobre 13º.
- Confronte com seus holerites — a alíquota é de 8% sobre a remuneração total.
- Em caso de irregularidade, comunique a empresa por escrito.
- Não havendo regularização, denuncie ao Ministério do Trabalho e procure orientação jurídica.
- Se está pensando em aderir ao saque-aniversário, faça as contas antes.

